domingo, 29 de junho de 2008

Em busca do Deus fenomenológico ou Sobre a Idéia de Deus (parte 3)


“Conhece-te a ti mesmo”
Oráculo de Delfos

3ª Parte: Aspectos da Personalidade
ou
Em busca de Deus como símbolo Sélfico

Tudo é amor

Quem já não ouviu aquelas histórias que contam que no instante de um assalto, o homem ou a mulher, ao invés de reagir com ódio, raiva ou excessivo medo, diz apenas, enquanto entrega seus pertences: “Que Deus lhe abençõe, meu filho!” – e então o aparentemente vil assaltante, perplexo, como se não pudesse compreender ou crer no que se passa, ou ainda tomado por uma emoção tamanha que o transpassa e o envolve, cai no choro, como uma criança que, esperando pelo pior castigo, recebe a luz do amor e do perdão?

É difícil averigüar aqui o quão raras ou o quão comuns são tais histórias; o quão verídicas ou o quão fantasiadas... Mas não vejo porquê não acreditar que elas de fato existem. Quantos pais e filhos não convivem com silêncios forçados, com emoções reprimidas, com afetos abafados, criando assim suas próprias armadilhas, oferecendo ao outro formas de amor que não podem ser sentidas e/ou reconhecidas de todo? O pai, frio e distante por algum motivo desconhecido, apenas oferece seu dinheiro como forma de amor ao filho, quando tudo o que este sempre quis foi apenas um abraço e um “Te amo!”. O pai, por sua vez, entende como uma retribuição a todos os benefícios materiais que ele concede, uma vida regular e honesta. Mas o filho, este não se envolve em qualquer coisa do seu cotidiano: é um aluno relapso, um extravagante nos atos e nos gastos. O pai briga com o filho: não compreende suas "loucas atitudes, sua ingratidão"; o filho, por sua vez, também discute com o pai, não compreendendo aquele profundo ódio que sente dentro de si, e que, quando só, volta-se todo contra sua própria pessoa. O pai se sente profundamente sozinho; o filho deseja sua própria morte. Até um dia em que, exausto de si próprio e de sua vida, o jovem ultrapassa todos os seus limites, indo parar na delegacia. O pai, enraivecido, vai buscá-lo, preparado para dar uma surra "naquele moleque" ali mesmo. Mas então, quando se vêem - quando os dois realmente se vêem -, como até então nunca em suas vidas havia ocorrido, algo desperta em seus corações. O pai não vê um irresponsável inconseqüênte atrás das grades, mas sim um coração desejoso de amor, de afeto, carinho e compreensão. E o filho não vê mais um homem frio e distante, mas sim um homem que, apesar de ter suas limitações, sempre o amou, que sempre o teve como uma das jóias de sua vida, e que sempre procurou oferecer do melhor para si – aquilo que seu pai nunca teve... Quando os dois se olham, naquela noite, ambos fragilizados, sem máscaras, nus – tudo se revela, brilhante e resplandecentemente. O filho buscava em sua dispendiosa vida o amor que não podia sentir nas atitudes do pai; e o pai, distante emocionalmente mas pródigo financeiramente, buscava assim defender-se de sua relação ausente com seu próprio pai, mantendo uma frágil ponte financeira que ele compreendia como sendo de alguém que se importava, como sendo de alguém que queria o melhor para a vida do filho. Naquela noite, após toda essa tempestade, pai e filho conseguem aquilo que sempre buscaram mas nunca haviam conseguido: abraçaram-se entre lágrimas, confessando-se, um ao outro, o quanto se amavam. E então o filho se abre para o pai, explicando e compreendendo tudo o que até então fizera; e o pai se abre para o filho, buscando no seu passado a chave para abrir os segredos das origens da própria relação que criou com seu filho. Provavelmente, tal noite foi a mais importante e profunda de suas vidas – e, com certeza, um momento em que ambos abandonaram uma parte dessa pesada carga que todos carregamos.

Bem, agora lhes pergunto: quanta raiva, quanto ódio, quanta indiferença, desprezo, apatia e intolerância, etc., não é apenas um reflexo, uma reação ao nosso desejo de mais e mais amor? Amor dos outros, amor do mundo, amor de nós para nós mesmos? Em essência, somos amor, puro e soberano amor. Nada mais. Mas, conforme vamos vivendo, vamos criando barreiras, abrindo fendas, levantando muros. Uma justiça sofrida, converte-se em dor, em mágoa, em ressentimento, até recair na amargura. Que, por sua vez, converte-se em um princípio de vida: “o mundo é injusto, sempre foi, sempre será”. Dessa maneira, a pessoa afunda em sua amargura e o seu coração é coberto de fel. E ela, a injustiçada de ontem, converte-se naquela que justamente cometerá a injustiça de amanhã, pois de sua amargura inicial (por falta de justiça, que é uma forma de amor, assim como a compreensão, o cuidado, a atenção, etc.), ela desenvolveu toda uma série de raivas, ódios, invejas, e por aí vai. Talvez tal pessoa consiga confessar-se para si mesma, em alguma noite solitária... em que tudo parece estar bem, apesar de seu coração pulsar sufocado dentro de seu peito. E então ela se pergunta: “como ser feliz?” Pois o fato é que ela acabou sendo enterrada viva por baixo de seus próprios sentimentos reativos.

O grande drama da vida é que muitos de nós só vamos aprender tais lições mais adiante, pois quando somos apenas crianças, pouco é o nosso controle espiritual sobre nós mesmos, sobre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos. A criança, ou melhor, a pessoa que ainda não se desenvolveu espiritualmente, que não possui ainda a posse de certa parcela de suas faculdades, torna-se muito suscetível ao ambiente externo. Crianças, filhos de pais separados, que passam a acreditar que foram elas próprias que causaram a “destruição da família”, tudo porque foram desobedientes e fizeram papai e mamãe brigarem... É óbvio que uma separação conjugal é a quebra de um estado de amor para a criança, e como ela talvez não possa compreender ainda as reais razões e causas para tal acontecimento, ela joga e impõe o peso da culpa sobre si mesma. Não “perdoa a si mesma”. E assim cresce com raiva e com ódio. Buscando no mundo, aquilo que no fundo encontra-se em seu coração.

Quantas pessoas que não existem por aí que se apegam demasiadamente a cargos e funções, com tal força e de tal maneira que qualquer tentativa de mudança e transformação por terceiros, automaticamente é entendida como um ataque a si mesmas, a tudo o que fizeram e a tudo o que “sacrificaram”? Pessoas, em todos os lugares, se apegam a teorias, a sistemas, a cargos, a um status obtido, a um trabalho bem feito, tudo porque tais coisas, tais medalhas, diplomas, livros e papéis oferecem a eles algo para se orgulhar - algo que mostram a eles que são dignos de amor! “Veja como sou digno! Pago as contas e trabalho direitinho! Não sou igual a esses vagabundos que não fazem nada e ainda querem auxílio desemprego!” “Veja como sei do que estou falando. Já fiz tantos trabalhos, tenho tantos diplomas! Se minha mãe estivesse viva, certamente ela se orgulharia de mim, pois ela sempre gostou de pessoas estudiosas!” E então quando chega alguém e afirma que elas não são, realmente, tais coisas, tais teorias, tais sistemas, tais cargos e profissões, elas agridem, defendem-se com toda a força possível, com todos os argumentos que puderem enunciar. É o seu valor que está em jogo. É o amor que merecem, seja de quem for – Deus, pátria, família -, encarnada e estruturada nessas coisas: teorias, sistemas, funções, medalhas...

Sim, a arrogância é uma forma desesperada de defender uma posição tal que a pessoa possa aí achar-se digna de amor. Quando na verdade a luz e a chuva recaem sobre justos e injustos, indistintamente. A violência do assalto do garoto do início do texto era uma busca de amor, por mais paradoxal que isso possa parecer. A arrogância é o medo de perder aquilo que tal pessoa entende como essencial a sua vida – e ao que ela é –, inconsciente da verdade que só o amor pode constituir realmente alguém. E se a pessoa não encontra a fonte infinita de amor em si, inevitavelemente ela buscará fora, acompanhada de qualquer outro sentimento, sustentadada por qualquer outro princípio, manifestada por qualquer tipo de ato. É triste quando vemos alguém que acredita que se seu cabelo não está bem penteado e suas unhas bem pintadas e seus peitos bem erguidos, só por isso, não é mais digna de amor. Ela é feia, é desleixada, é descuidada – é uma porcaria mesmo que ninguém deveria olhar ou se importar... A busca por amor pode pintar-se com tintas verdadeiramente trágicas. Porque, como já foi dito nos textos anteriores, tenta-se apreender o inapreensível, segurar a água com os dedos da mão, manter para sempre aquilo que inevitavelmente irá escorrer, degenerar, transformar-se. Quando a pessoa passa a beber da fonte, ela se liberta de esperar a luz de um mundo que só pode oferecer ilusões. Aliás, é somente quando a pessoa passa a beber da fonte, que ela pode enxergar a vida tal como ela é. E foi isso o que fizeram os sábios e os santos de todas as tradições. Tomados pelo amor de Deus, destituídos da ilusão dos fenômenos e dos grilhões que nos prendem ao mundo, tais pessoas puderam enxergar todo este mundo de um lugar acima, apesar de ainda vivê-lo como um homem aparentemente comum. Mas com uma diferença essencial: a liberdade da auto-realização no amor os permitiam ir muito mais longe, fazer o que para os homens ainda presos aos conceitos, teorias, valores e ilusões da época social parecia impossível. Aquele que se vê inundado no amor divino se encontra bem acompanhado onde quer que esteja, no quer que esteja fazendo. Ele tomou para si o rumo de sua vida, pois não possui nada que o prenda e o direcione vindo do mundo. É claro que digo num plano ideal. Mas é que a diferença de atitude, de experiência e de sentimento de vida é tal, que seu posicionamento para aqueles que estão inseridos no mundo mais ordinário é de extremo distanciamento. No fundo, o que ocorre é que a pessoa liberta - ou em vias de libertação -, a pessoa que sustem-se com o amor que vem de seu coração, ganha a capacidade de ler, interpretar e usar cada símbolo, representação ou valor, conforme sua vontade e necessidade momentânea, pois ela não se prende a cada um desses objetos, ela vê além deles, seu olhar os atravessa. Usa-os não porque é dependente deles, mas porque a vida prática, no agir cotidiano, pede o uso de uma linguagem, de um objeto social, existente ou criado, que dê forma ao ato. Mas a pessoa que tem a fonte de amor interna aberta, não se apega a nada. Usa os objetos e os devolve calmamente. E como carrega a luz em seu coração, não possui a necessidade de aferrar-se possessivamente a qualquer coisa ou a qualquer pessoa. Pois sabe que tudo o que ela vive, tudo o que as coisas e pessoas signficam para ela, saiu emprestado, por assim dizer, de si mesma. Se alguém deixa de amá-la, ela não se sentirá um lixo por isso, pois ela sabe e ela se vivencia como amor. E então pode buscar com maior clareza as razões pelas quais alguma pessoa tenha deixado de amá-la... O que ela esperava ver, ter ou receber, que não foi satisfeito. E, quem sabe, como fazer com que tal pessoa veja, tenha e receba o que ela deveria buscar a princípio ou no fim em si própria, em seu coração.

São raros os bebês que não gostam de amor, de carinho, de afeto, de um sorriso - se é que há algum... Nascemos puros. Com a crença total de que receberemos amor, de que estamos imersos no amor. Mas como a vida é repleta de percalços, o novo ser vivo que veio ao mundo já cai num mundo de ilusões. E corre o risco de arrastar junto consigo toda uma parafernália daquilo que lhe serve de identidade exterior, formando-a ilusoriamente de fora para dentro, e não de dentro para fora, de seu coração para o mundo, de sua real necessidade e capacidade para um ambiente que o acolhe e o significa. No entanto, quanto mais maduros espiritualmente estamos, melhor podemos discernir o que é realmente do mundo e o que é de nosso coração - podendo assim fortalecer o que realmente somos, o que realmente devemos ou podemos ser. E quanto mais potencial interior tivermos, mais fortemente constituídos estaremos. Mais libertos, mais energizados, mais felizes. Mais plenos. O resto é um mar à deriva dos acontecimentos e dos fluxos da história. Sansara – o ciclo das ilusões. É claro que a coisa não é tão bipartida: aqui a liberdade, ali a escravidão. Vejo mais como um caminho, onde quanto mais próximo estamos de Deus, quanto mais próximos estamos daquilo que somos realmente, quanto mais próximos estamos de nossa realidade última ou primeira – que é o Amor - mais livres, mais fortes e iluminados nos tornamos. Creio que este seja o caminho para Deus – caminho que pode surgir e desabrochar por diferentes maneiras, através de diversos métodos. Mas uma coisa é certa: apenas o amor cria ou desvela mais amor, assim como apenas a luz finda com a escuridão. A evolução talvez termine quando pudermos reconhecer, sentir e viver todo o universo, ou, indo mais longe, a própria divindade dentro de nós. O amor que outrora estava encerrado e encapsulado em algum objeto ou algumas pessoas, em alguma teoria ou alguma posição social, retorna para sua origem, da mesma forma como as águas dos rios retornam para o oceano. Assim podemos ver tudo em nós e nós em tudo. Transcendemo-nos em nós mesmos pela ação do amor.

Pois somos amor. Vivemos no amor. Somos transpassados pelo amor.

No fundo, tudo é amor.


*

Este é o caminho para a busca de Deus como símbolo Sélfico. O qual representa e existe como a potencialidade latente de tudo o que poderemos manifestar no mundo. A busca amorosa por mais e mais amor constitui uma viagem infinita para o âmago do si-mesmo - e de tudo o que daí pode nascer. Permanecer aprisionado por conceitos, idéias, sentimentos e lembranças é resistir a esse divino chamado - que não apenas é o chamado pessoal, o dever que toda pessoa tem consigo mesma e com as demais, como também é aferrar-se a uma vida sem sentido, uma vida de lamento e auto-piedade, de ilusão e desordem, podendo chegar a níveis altíssimos de violência, até resultar na morte.

A busca de Deus como símbolo Sélfico nos torna mais livres, mais centrados, mais próprios. Senhores de nós mesmos, ganhamos sustentação suficiente para nos relativizarmos, e, assim, sempre transcender nossos próprios afetos e pensamentos. A busca de Deus como símbolo Sélfico, como a mais pura das Verdades Íntimas, traz para si capacidades cada vez maiores das demais buscas: como a busca da Verdade Absoluta e a busca do Todo. Pois quanto mais nos reconhecemos como amor, ou melhor dizendo, como Amor (livre e incondicional, auto-existente e puro), mais harmonizados e unos estamos, e mais harmonia e unidade desejaremos no mundo. Não a unidade do autoritarismo, mas sim a unidade de Deus, que apesar de transcender todo o Cosmos, ainda assim não atenta contra a liberdade de cada um de nós. Um amor de espera, de expectativa, de esperança, de abnegação, de compreensão, de busca, de desejo de mais luz. E também, quanto mais nos experimentamos como amor, mais livres nos tornamos dos elementos do mundo, podendo transitar por cada um deles, reconhecendo que no fundo não passam de um jogo de imagens a nos impulsionar para mais e mais amor - uma escada espiralada para o âmago de nosso ser - que é Deus -, que é o que há de mais Real em nossa alma e neste mundo, mesmo que alguns possam considerar Deus como apenas uma idéia. Trata-se aqui da mais pura e mais real das idéias, pois todas não passam de reflexo Dela e trajeto para Ela. Para que no final - e mesmo até antes - sequer necessitemos de seu aspecto como idéia para que possamos experimentá-La. Deus apenas é - antes e além de tudo o que podemos conceber, sentir ou imaginar.

Quem alcança a consciência da essência amorosa do seu Ser, não tem outra coisa a fazer neste mundo a não ser tentar mostrar aos demais a essência amorosa que os mantém, que os sustenta, que os constitui - e, por outro lado, todas as ilusões criadas e engendradas por medo de não terem esse amor que no fundo existe como um manancial em seus prórpios corações. As pessoas que se apegam guardam avaramente a chave de ouro que poderia abrir um infinito tesouro de luz e amor.

Para ser mais exato, quanto mais próximos estivermos de nosso espírito, harmonizados com nossa essência - que nasce e se desenvolve gradualmente do amor ao Amor, passando por inúmeros tipos e gêneros de amor -, mais estaremos em conexão com o Todo, e mais e mais amorosamente estaremos envolvidos com o Mundo, buscando refletir no mundo exterior e em cada coração que passa por nossas vidas todo o potencial de amor e de harmonia que podemos manifestar. A evolução prossegue para o Amor e para a Harmonia em todos os âmbitos: no interno e no externo, no individual e no cósmico. Um santo quando se ilumina, desce de onde está para trazer um pouco de sua luz para os demais, um pouco de seu amor, um pouco de sua paz. Quanto mais a alma está desperta, mais ela age para despertar a consciência divina nos seus semelhantes.

E assim prosseguimos do relativo ao Absoluto, do particular para o coletivo (que não nega o particular, mas o afirma conjuntamente), dos diversos sentimentos para o Amor, dos vários princípios para aquele único que criou, que sustenta e que finalizará toda a ação do Cosmos, tanto o interno (o self), como o externo (o Self de Deus): que é o Amor. Quando chegar o momento em que todos estiverem no seio de Deus, tudo o que existirá será o Amor. Único e soberano.

Ao menos é o que posso especular com a quantia de verdade que tenho nas mãos, e com o potencial de amor que posso traduzir em palavras.

O mais é o Mistério - que também é uma forma de Amor.

domingo, 22 de junho de 2008

Graciliano Ramos e o seu olhar sobre o mundo


(Contra-artigo posicionando-se diante das afirmações do crítico Álvaro Lins que afirmava que, em suas obras, Graciliano Ramos não demonstrava interesse verdadeiro por seus personagens.)

Há diversas maneiras de demonstrar estima e interesse por aqueles que nos rodeiam - porque há diversos tipos neste mundo, cada qual com seus limites e capacidades, seus anseios e desilusões... Alguns não sabem demonstrar interesse senão brigando com aquele por quem tem afeição: “Mas como você foi fazer isso?! Parece que não pensa no seu futuro!”; alguns preferem uma boa e franca conversa; outros só sabem demonstrar afeto oferecendo algo (como aquelas avós que nos querem fazer comer como se fôssemos sair viajando por uma semana inteira!); outros ainda, só sabem demonstrar o quanto gostam de alguém revelando-se completamente dependentes ou enchendo a sua paciência (como aqueles garotos que vivem a atazanar a menina que lhes roubam a atenção!); alguns ainda demonstram trazendo preás para os donos famintos; e outros, por sua vez, escrevendo – como é o caso de Graciliano Ramos...

Talvez alguém possa se indignar neste ponto, questionando: “Como você pode rebaixar o assunto a este nível? Estamos aqui discutindo se de fato Graciliano Ramos tinha ou não interesse verdadeiro por seus semelhantes e você vem com toda essa história de avós que dão docinhos ou meninos que puxam cabelos... Como você pode comparar uma ação política de alguém - como pode ser um texto literário - que pensa no futuro de uma parcela da população com a atitude esdrúxula de quem não sabe fazer outra coisa do que demonstrar dependência ao tal ser amado?...” Então responderia que realmente meu interlocutor está certo. O que quero com tudo isso não é comparar duas ações completamente diferentes, seja em termos emocionais e afetivos, seja em termos contextuais ou em quantos mais termos quisermos pôr nessa equação. O que quero com tudo isso é afirmar que as coisas, quando olhadas mais de perto, são extremamente complexas, havendo muitas vezes múltiplas faces com as quais devemos lidar, de tal modo que afirmar peremptoriamente que um autor da grandiosidade de um Graciliano Ramos escrevia apenas para rir de seus personagens, indiferente a eles ou ainda experimentando ódio e desprezo por eles – e por toda a humanidade –, parece-me uma grande e até ofensiva simplificação.

Pus todos aqueles exemplos no início do texto apenas para explicitar que qualquer atitude para o exterior está inevitavelmente interligada com algo que ocorre no interior do indivíduo, algo oculto a uma simples e rápida observação. Um Nietzsche que despreza a sua fraqueza irá desprezá-la em todos os demais, e talvez até sentirá ódio por eles, tudo para não se ver identificado com eles e com sua situação. A dureza que ele impõe para si será a dureza que ele irá impor para toda a humanidade. E talvez o ato mais generoso dele, tomando-o como ponto de partida, seja realmente essa sua dureza com relação à vida, já que foi ela que o constituiu – e a quem ele é muito grato. O que ocorre em meio à complexidade das relações humanas é que o que é bom, doce ou profundo para um pode ser mau, intolerável ou até ridículo para algum outro. Como afirmar, então, do alto o que é uma atenção verdadeira, um grande e nobre interesse ao semelhante? Eis a primeira questão a se problematizar. Um político ganancioso, que faz tudo em nome do seu ego, passando por cima dos demais sem quaisquer escrúpulos, mas que chegando ao poder faz algum bem para dada população – ele teve interesse verdadeiro por eles? Bem, se se perguntar aos próprios beneficiados, eles lhe dirão que sim. Se se perguntar a algum idealista da política, ele poderá lhe responder que tal homem não passa de um cachorro amoral que ludibria a todos que acreditam nele. Um outro exemplo: um homem que teve uma infância absolutamente severa e cheia de privações resolve fazer o completo inverso com seu filho, oferecendo-lhe - por amor - todas as regalias e liberdades. Nem é preciso dizer que tal ato, hoje em dia, seria muito questionado. Agora, no caso de Graciliano Ramos: um homem que, por qualquer motivo que seja (e ele os teve de sobra, é bom que se diga...), se vê imerso em um universo verdadeiramente sarcástico, onde tudo parece ser norteado por alguma lógica perversa, seja a miséria que oprime ou que faz oprimir, seja a forma como está estruturada toda a sociedade com seus valores ultrapassados e arruinados, seja o próprio entrechoque de naturezas diversas no cotidiano (e em menor grau, mas talvez até mais relevante e decisivo – a sua família de Infância); tudo isso, quase que inevitavelmente, faz com que se sinta um certo desgosto pela vida. Quero dizer, anulando aqui o eufemismo: ódio, desprezo, ironia, crueldade, niilismo, etc.

Acontece que o escrever, assim como qualquer outra atividade humana, traz em si as marcas da personalidade daquele que escreve. Ninguém diria que foi casual o fato de Dostoiévski criar Raskólnikov, ou Stendhal Julien Sorel, ou ainda Clarice Lispector G.H. No fundo, só se pode criar algo com o que se possui alguma ligação, seja imaginando-o como igual ou semelhante (em pelo menos alguma característica), seja imaginando-o como tudo aquilo que não se quer tornar, pois em matéria de criação tudo sai à “imagem e semelhança” daquele que cria, apesar de todo o esforço contrário que se possa empreender. Mesmo havendo toda uma riqueza e complexidade humanas em cada romance, há determinadas características que acabam entremeando todo o enredo e toda a caracterização dos personagens, como se fossem um fio condutor utilizado pelo escritor, um eixo em torno do qual tudo gira e parece retornar, para então partir novamente. É este eixo que vai dar a cor e a tonalidade de cada história (e, às vezes, de todas as histórias...).

Portanto, se é verdade que os romances de Graciliano Ramos são secos em matéria de sentimentos, e seus personagens seres baixos, com pouquíssima capacidade de qualquer transcendência, é por que foi tal sensação que mais forte se gravou em sua alma. Ele próprio, certa vez, chegou a confessar que não escrevia da maneira que mais lhe agradava, mas sim da maneira que lhe parecia estar mais de acordo com sua experiência de mundo. Isso me faz lembrar de um trecho de Infância onde Graciliano chega a confessar que...

"Não me importava a beleza: queria distrair-me com aventuras, duelos, viagens, questões em que os bons triunfavam e os malvados acabavam presos ou mortos. Incapaz de revelar a preferência, resignei-me e agüentei as Baladilhas, o Romanceiro, outros aparatos elogiados, que me revolveram o estômago. Cochilei em cima deles, devolvi-os receando que me forçassem a comentá-los. Para mim eram chinfrins, mas esta opinião contrariava a experiência alheia. Julguei-me insuficiente, calei-me, engoli bocejos. Enquanto o dono da casa explanava a literatura encrencada, esforcei-me por entendê-la. Senti medo e preguiça. Não me arriscaria a controvérsia: acomodava-me a presença de uma autoridade." (Infância)

Nesta época ele era ainda um jovenzinho, mas é interessante esse abismo entre as suas preponderâncias literárias dos primeiros anos em relação com toda a forma e conteúdo com que ele acabou se fazendo um grande escritor. É interessante também compararmos os seus escritos literários com as primeiras cartas endereçadas à Heloísa. Cartas de amor, mas de um amor romântico e explosivo. Graciliano Ramos? Sim, Graciliano Ramos – um dos escritores mais secos que existem (?). Isso me traz à mente aquela lei da física em que se sente mais fortemente o frio da água gelada quanto mais quente estiver a sua mão. Talvez, então, se os seus escritos literários são tão secos, revelando uma vida tão exígua e degradada, personagens tão perdidos e descontentes, seja porque a vida, para o próprio Graciliano Ramos, foi-lhe tão fria, mas tão fria, que seria praticamente impossível ele não endurecer o seu coração e mesmo a sua percepção para que esse mesmo coração não se estilhaçasse frente à tamanha dureza. O fato não é que Graciliano vivia em um mundo em que todos fossem uns pobres de uns miseráveis que caminhavam desnorteados pelo mundo, mas que, por uma série de motivos, tal fato se mostrou a ele como algo quase que irrelevante. Em Infância, por exemplo, há alguns personagens bons e dignos, por quem ele até nutria viva simpatia e mesmo gratidão, como é o caso de D. Maria:

"Aquela brandura, a voz mansa, a consertar-me as barbaridades, a mão curta, a virar a folha, apontar a linha, o vestido claro e limpo, tudo me seduzia. Além disso a extraordinária criatura tinha um cheiro agradável. (...) Dominava os receios e a tremura, desejava findar a obrigação antes que estalasse a cólera da professora. Com certeza ia estalar: impossível manter-se um vivente naquela serenidade, falando baixo. A cólera não se manifestou – e explorei diversas páginas." (Infância)

E mais adiante, conclui sobre D. Maria:

"D. Maria representava para nós essa grande ave maternal – e, ninhada heterogênea, perdíamos, na tepidez e no aconchego, os diferentes instintos de bichos nascidos de ovos diferentes.Nessa paz misericordiosa os meus desgostos ordinários se entorpeceram, uma estranha confiança me atirava à santa de cabelos brancos, aliviava-me o coração." (Infância)

No entanto, após esses minúsculos intervalos de paz, Graciliano tinha que retornar para sua casa, isto é, para sua mãe “de olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, e para seu pai, aquele pai dos terríveis e injustos casos do “Cinturão” e de Venta-Romba. Aliás, sobre este último episódio, faz-se necessário que se enfatize o quão comovente foi a narração de tal cena, que antes de apresentar pura e simplesmente um ódio ou desprezo, apresenta uma imensa tristeza pela condição humana aqui retratada. Nas palavras do próprio Graciliano: “desgosto, repugnância e vago remorso”, tanto pela fraqueza e limitação dos outros (a “indiferença” da mãe, a “fraqueza” autoritária do pai, a “curiosidade perversa” das crianças, o policial que cumpre seu dever apenas por cumprir...), como também pela sua própria, que assistiu a tudo calado, mesmo sabendo da inocência de Venta-Romba e do exagero sem maiores motivos a que tinha chegado toda a situação. A flácida e boa figura daquele homem, com todo seu espanto e incompreensão nas suas repetidas e reticentes perguntas: “Por quê, seu Major?”, fazendo contraponto com toda aquela constelação de figuras que nada se importavam com o que poderia ocorrer com aquele homem, que nada se importavam da arbitrariedade de todo o desenrolar de algo que eles próprios criaram e que eles próprios poderiam resolver, caso não se mostrassem tão frios e covardes.

"Venta-Romba sucumbiu, molhou de lágrimas a barba sórdida, extinguiu num murmúrio a pergunta lastimosa. (...) Fui postar-me na calçada, sombrio, um aperto no coração." (Infância)

O ódio e o desprezo de Graciliano, acredito, se dirige muito mais a essa fraqueza e limitação, a essa covardia e mesmo estupidez, a essa indiferença e crueldade generalizadas que havia, em certo grau, tanto nele como nos demais – sentimentos que, por assim dizer, faziam a vida de todos extremamente mais seca e mais miserável. Um desprezo ao desprezo, um ódio ao ódio, uma crueldade a crueldade e a tudo a que isso leva: “absoluta negação e destruição”, nas palavras do crítico Álvaro Lins. Vendo a situação por esse modo, pode-se entender talvez a escrita como um meio de se redimir de tudo isso.

"A faixa vermelha desaparecera, diluíra-se no azul que enchia o céu. Sinhá Vitória precisava falar. Se ficasse calada, seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer que era forte, e aquilo tudo, a quentura medonha, as árvores transformadas em garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada. Chegou-se a Fabiano, amparou-o e amparou-se, esqueceu os objetos próximos, os espinhos, as arribações, os urubus que farejavam carniça. Falou no passado, confundiu-o com o futuro. Não poderia voltar a ser o que já tinham sido?" (Vidas Secas)

Uma redenção repleta de ambigüidades, toda complexa e intrincada, onde se emaranha todo um conjunto muitas vezes contraditório de sentimentos e desejos, já que muito do escrever em Graciliano aparece como mágoa reprimida, ódio sufocado e uma profunda desesperança – mas uma desesperança que ainda guarda em seu interior algum germe de esperança, ou, melhor dizendo, de algo que tenderia a esse sentimento, mesmo que fosse sem fundamento algum, afinal, se todo o universo parece conspirar contra uma solução para a vida humana, ainda restam alguns momentos nos quais a vida parece retomar a cor e em que os seres (tanto humanos como animais) convergem para um ponto em comum, para alguma harmonia, mesmo que mínima, em meio a todo esse intrincado destituído de sentido que poderíamos chamar de vida humana (em Graciliano Ramos).

"Desde esse dia tenho recebido muito coice. Também me apareceram alguns sujeitos que me fizeram favores. Mas até hoje, que me lembre, nada me sensibilizou tanto como aquele braço estirado, aquela fala mansa que me despertava.

- Obrigado Rosenda.

(...) chorava por causa da xícara de café da Rosenda..." (Infância)

"Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os fugitivos agarraram-se, somaram as suas desgraças e os seus pavores. O coração de Fabiano bateu junto do coração de Sinhá Vitória, um abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam." (Vidas Secas)

Esses personagens de Vidas Secas são incrivelmente oprimidos, seja pelo clima no qual se encontram, seja pelas relações de poder que os rodeiam (o soldado amarelo, o proprietário da fazenda), seja ainda pela própria brutalidade à qual foram reduzidos com o passar do tempo e de suas experiências. E, em certo sentido, quem de nós não se enxerga aqui, não em termos de forma (como retirantes), mas de conteúdo? Quem que não é também limitado por certas “arbitrariedades”, ora estando no mundo ao redor, ora estando em nós mesmos, que nos impedem muitas vezes de fazer aquilo que em algum grau desejávamos? Se fosse para arriscar algo sobre a obra de Graciliano, diria que ele não faz nela um culto ao nada, pregando uma filosofia da completa destruição, mas sim que ele aponta, da forma como pôde, tudo o que pode levar a tal sensação de mundo – e oferece a sua contribuição, mesmo que involuntária (nunca se sabe...), de como lutar, na medida do possível, contra toda essa adversidade. De fato, Paulo Honório e Luís da Silva, por caminhos opostos, um pela “ascensão” e o outro pela “decadência” moral, chegaram ao mesmo ponto, ao mesmo sentimento de invalidade da vida. Mas por quê? O que fez com que um Luís da Silva se tornasse o que se tornou, tendo a necessidade de cometer um crime para se auto-valorizar, torturando-se sadicamente com os ruídos das relações sexuais de sua vizinha, e não um Graciliano Ramos – mesmo que este ironizasse a sua própria condição? E a respeito de Paulo Honório, personagem fabuloso por sua imensa vontade e determinação em dobrar o mundo ao seu redor, saindo de uma posição miserável para alcançar a de proprietário da fazenda São Bernardo: foi forte o suficiente para submeter o mundo inteiro, mas falhou terrivelmente em dominar seus próprios impulsos. Sabia do valor de Madalena para ele. Mas deixou que seu sentimento de posse, seu ciúmes louco e descontrolado, conduzisse Madalena para o seu trágico final, para só no fim de sua vida, após ter arruinado tudo com suas próprias mãos, compreender o porquê daquilo tudo ter chegado aonde chegara. Eis a sua própria tragédia – e que também pode ser a nossa enquanto estivermos vivos.

"Creio que nem sempre fui egoísta e brutal. A profissão é que me deu qualidades tão ruins. (...) Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. (...) Conforme declarei, Madalena possuía um excelente coração. Descobri nela manifestações de ternura que me sensibilizaram. E, como sabem, não sou homem de sensibilidades. É certo que tenho experimentado mudanças nestes dois últimos anos. Mas isto passa." (São Bernardo)

"As amabilidades de Madalena surpreenderam-me. Esmola grande. Percebi depois que eram apenas vestígios da bondade que havia nela para todos os viventes." (São Bernardo)

Contudo, uma compreensão não da completa arbitrariedade, mas uma compreensão historicamente determinada. “Creio que nem sempre fui egoísta e brutal”. O que é tal frase senão uma luz de esperança – não para Paulo Honório, mas para a humanidade em geral, para todos os que lerem São Bernardo, para todos os que viverem posteriormente e, quem sabe, encontrassem um mundo menos injusto ou opressivo (como marxista que Graciliano era...)? Se ele acreditava nos homens é algo que dificilmente saberemos, mas que ele mostrou certas luzes a guiar o nosso comportamento, isso ele mostrou – ou, ao menos, revelou muito daquilo que torna a vida “despojada” de poesia e sentido, como é, em grande medida, a forma e o conteúdo de seus romances. E mesmo levando em consideração tudo o que há de mais opressivo e degradante, deixou implícito em meio a todo esse universo de secura, um motivo para se viver, um motivo para agir, por mais desolador e mesmo fatalista que ele possa parecer às vezes.

"Lembrou-se dos filhos, da mulher e da cachorra, que estavam lá em cima, debaixo de um juazeiro, com sede. Lembrou-se do preá morto. Encheu a cuia, ergueu-se, afastou-se, lento, para não derramar a água salobra." (Vidas Secas)

A tragédia de Paulo Honório não foi a vida em si. Para esta ainda tinha ele alguma salvação. A sua tragédia foi ele ter destruído a pessoa que passou a dar sentido (ou algum sentido) a sua vida.

"- Estraguei a minha vida, estraguei-a estupidamente.(...) E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos..." (São Bernardo)

Quando penso em Graciliano Ramos, vem-me a imagem de Fabiano. Afinal, o que é Graciliano Ramos (ou, melhor dizendo, uma boa parte dele) senão esse “cabra” preso no ciclo de escrever, escrever e escrever, fugindo da seca e só encontrando mais seca – e quando dá sorte, a sombra de um juazeiro, um riozinho quase que totalmente seco, um preá para não morrer de fome?... E por mais que ele queira, sabe que jamais conseguirá acabar com a seca, ou matar todas aquelas aves que cobrem o mundo de penas e esvaziam o açude. É tão impotente quanto Fabiano, com a grave diferença que nem sequer tem como consolo a crença em algum “pensamento mágico” e supersticioso. Tem profunda consciência que seus tiros de espingarda são pouco para pôr fim a todas aquelas aves, quanto mais em impedir a seca que está sempre a o ameaçar – a nos ameaçar. E o que é Graciliano senão esse “cabra” imperfeito e limitado, mas que luta bravamente contra a sua própria imperfeição – contra a imperfeição do mundo? Foi Carpeaux que disse que se pudesse Graciliano suprimiria o seu romance inteiro, o mundo inteiro, não foi? Pois é verdade. E talvez até neste ponto Graciliano tenha algo em comum com Fabiano. A imensa dificuldade de comunicação, de fazer-se compreensível e razoável. Por mais que se esforçasse, Graciliano tinha para si que nunca estaria perfeito, e muitas vezes alimentava até uma sensação completamente negativa por seus textos. Não adiantava alguém elogiá-lo, pois a desconfiança surgiria: “Será que estão zombando de mim?” – assim como acontecia com Fabiano entre os homens da cidade...

"Começaram a discutir em voz baixa uma passagem obscura da narrativa. Não conseguiram entender-se, arengaram azedos, iam-se atracando. Fabiano zangou-se com a impertinência deles e quis puni-los. Depois moderou-se, repisou o trecho incompreensível utilizando palavras diferentes." (Vidas Secas)

O limite entre ser um homem e ser um animal...

"- Você é um bicho, Fabiano.
(...) Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta." (Vidas Secas)

Ou, melhor dizendo, entre a humanidade e tudo aquilo que a destrói, entendendo humanidade aqui não como algo próprio dos homens, mas como algo que estes deveriam constantemente buscar, pois não é nada mais do que a esperança de algum mundo melhor, de algum mundo mais belo. E se este não passa de uma grande ilusão, de uma grande inocência, tal qual o sonho de sinhá Vitória no último capítulo de Vidas Secas, que se busque para si mesmo – para a sua própria (e pequena) salvação e daqueles que lhe rodeiam, dando-lhes a oportunidade de pelo menos viver mais alguns dias, mesmo que sofridos e absurdos, mas criando a possibilidade de algum momento de legítima felicidade, por menor e mais ínfima que ela seja.

"Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinhá Vitória beijava o focinho de Baleia, e como o focinho estava ensangüentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo."

"Aquilo era caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo. E Fabiano queria viver. Olhou o céu com resolução. A nuvem tinha crescido, agora cobria o morro inteiro. Fabiano pisou com segurança, esquecendo as rachaduras que lhe estragavam os dedos e os calcanhares."

"(...) Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes." (Vidas Secas)

"A atenção é uma forma alta de generosidade" - Simone Weil

Bibliografia:

• Ramos, Graciliano – São Bernardo – Editora Record – 46ª edição
• Ramos, Graciliano – Angústia – Editora Record – 52ª edição
• Ramos, Graciliano – Vidas Secas – Livraria Martins Editora – 30ª edição
• Ramos, Graciliano – Infância – Editora Record – 23ª edição
• Lins, Álvaro – Valores e Misérias das Vidas Secas
• Carpeaux, Otto Maria – Visão de Graciliano Ramos